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Quando o advogado precisa ser também gestor, comercial e financeiro, o trabalho jurídico fica em segundo plano

Quando o advogado precisa ser também gestor, comercial e financeiro, o trabalho jurídico fica em segundo plano

A alta prevalência da advocacia autônoma no Brasil transforma a rotina profissional: o 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira (Perfil ADV), encomendado pelo Conselho Federal da OAB à FGV e aplicado a 20.885 advogados em 2023, mostra que 72% dos profissionais atuam de forma autônoma. Nesse cenário, a execução de tarefas administrativas por parte do advogado é regra, não exceção, e impacta diretamente a gestão dos riscos operacionais do escritório.

Quando o advogado precisa ser também gestor, comercial e financeiro, o trabalho jurídico vira atividade de risco

Advogados autônomos frequentemente não contam com estrutura de suporte administrativo e acumulam funções - análise jurídica, elaboração de peças, representação em audiências, controle de caixa, emissão de notas fiscais, acompanhamento de inadimplência, gerenciamento de clientes, organização da agenda e monitoramento de andamentos processuais. Essa sobreposição distribui a atenção entre atividades de naturezas cognitivas distintas e tende a reduzir o tempo disponível para tarefas estritamente jurídicas. Dado que 70% desses profissionais recebem entre dois e cinco salários mínimos mensais, a capacidade de contratar apoio externo é limitada, o que reforça a pressão operacional sobre o próprio advogado.

O controle de prazos processuais é apontado como uma das áreas de maior risco operacional. No processo civil, os prazos decorrem do Código de Processo Civil, de normas específicas de cada tribunal e de calendários de feriados nacionais, estaduais e municipais; o cálculo correto exige considerar suspensões de prazo, recessos judiciais, regras de contagem em dias úteis e publicações no Diário da Justiça Eletrônico. Quando esse controle depende de registros manuais ou de anotações pessoais, o potencial de erro aumenta; a perda de prazo pode resultar em prejuízo ao cliente, responsabilização civil do advogado e comprometimento da reputação profissional.

Nem toda ferramenta tecnológica resolve esse problema da mesma forma. Ferramentas de IA de uso geral ajudam na produção de textos e na resposta a perguntas, mas, conforme os fatos confirmados, não têm acesso à agenda do escritório, não monitoram andamentos processuais, não conhecem o histórico de clientes e não calculam prazos a partir de publicações reais. Softwares jurídicos com IA integrada, por sua vez, são construídos sobre a estrutura do sistema processual brasileiro - incorporando regras do CPC, calendários de tribunais e variações de feriados - e monitoram automaticamente movimentações processuais, identificando publicações relevantes e disparando alertas sobre prazos. Parte dessas plataformas também inclui geração de minutas, organização de tarefas por processo e registro do histórico de atendimento a clientes, o que centraliza funções hoje dispersas em planilhas, agendas e anotações pessoais.

Há ainda dimensão de conformidade a considerar: inserir dados de clientes em plataformas não especializadas levanta questões relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao dever de sigilo profissional; por outro lado, softwares jurídicos especializados, em geral, operam com políticas de privacidade e armazenamento de dados pensadas para estar compatíveis com as exigências da LGPD e com normas éticas da profissão. Centralizar o monitoramento de andamentos e prazos em uma plataforma jurídica integrada reduz a dependência de controles manuais, aumenta a previsibilidade do calendário processual e, plausivelmente, libera tempo do advogado para atividades de maior valor jurídico, diminuindo a exposição a erros operacionais - sem, contudo, eliminar a necessidade de revisão profissional e de práticas adequadas de compliance.

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